Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador brecht. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador brecht. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Os Tubarões de nossa Pátria

Ontem 29 de agosto de 2016, voltamos às nossas atividades no PEAD. Concomitantemente ao reinício de nossas aulas acontecia a farsa de pão e circo vivenciada pelos políticos golpistas de nosso país, que tranformaram nossa democracia numa frágil imagem  de um oásis! Um deserto sem esperança.Volto ao universo acadêmico com a sensação de que pouco se leu, pouco se aprendeu e  muito pouco ainda, se ensinou...Onde paramos com nossos sonhos e construção de um país mais justo para todos, com igualdade entre as pessoas e principalmente num país onde Paulo Freire possa ser um ícone do pensamento libertário e não uma figura a ser banida como tanto se vê nas mídias?Diante de todas essas reflexões me veio à memória o poema de Brecht - "se os tubarões fossem homens".




Bertold Brecht
Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?
Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.
O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.
Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.
Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.
Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Intertexto

Estamos vivendo momentos muito estranhos em nossa conjuntura político-social, em nosso país e também no mundo; especialmente agora, em nossas escolas, em nossa sociedade, de forma geral... Tudo com a velocidade da informação virtual! Tudo de forma instântanea e voraz!
Tenho pra mim, que o tempo de sermos "pegos", acaba de chegar! Estão nos levando, também ( a exemplo do poema)! Talvez,  não estejamos entendendo perfeitamente que estamos sendo devorados pelo grande sistema, que a tudo domina, a tudo sufoca. E a tudo conduz...coercitivamente, para a "ordem e progresso"!
Isso tudo me lembrou o poema de Brecht, inspirado em uma das muitas versões do sermão de Martin Niemöller.

Intertexto - Bertold Brecht (1898 -1956)


"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."